Trechos do livro “As sementes que o fogo germina”, de Sumaya Lima*


Imitação do amor (pág. 13)

Agora estou partindo, e na verdade sinto como se retornasse ao meu lugar após um longo combate em terra estranha. Saio a coxear, claro, já sem os mesmos contornos, as capacidades diminuídas, e Gregório virá também com suas marcas. Nesta altura da vida, já vamos muito alterados. Mas, para simular o amor, há sempre muitos meios. Sair em viagem na companhia de alguém, por exemplo. Este simples estar passageiro de nós dois aqui é uma imitação bem plausível do amor.


Polaroide (pág. 14)

Naquele mesmo domingo de agosto, quando o sol se pôs e o último convidado se despediu, a nonagenária foi habilmente amarrada à sua cadeira de rodas e presa, com fita de carga, ao escapamento de uma van Mercedes Sprinter 13 lugares. O veículo, dando voltas pelo centro histórico da cidade de Iguape durante a festa do Senhor Bom Jesus, segunda maior confraternização religiosa do estado de São Paulo, rumou para a ponte que liga o município, no continente, à vizinha Ilha Comprida. Perto do quilômetro três, a van parou e nove mulheres desembarcaram, desprenderam a cadeira do carro e lançaram o corpo esfacelado de Lurdes Medeiros de encontro às águas do Mar Pequeno. Há fotos.


Subterrâneos (pág. 20)

Por quanto tempo uma pessoa é capaz de andar na vida com verdades enterradas dentro de si? Como respira quando ocupam todo o espaço entre as costelas, quando entopem suas veias, sufocam a garganta? Meu pai tinha segredos enovelados nos órgãos internos como teias tumorais. Estrangulado, sem vazão, privado de si, era um corpo tomado por uma batalha entre a razão de ser e a impossibilidade de ser.


O olho do dia (págs. 77 e 78)

Nos instantes que ainda me sobram, recordo a fragrância que me penetrou neste início de tarde quando, discreto, pude ver Deise a se divertir no banho. As gotículas de água estrepitando sobre a pele nua em meio à bruma abafadiça do boxe. Os modos parvos de distribuir a espuma no corpo. A indiferença nos gestos, a lassidão e, contudo, o esplendor da vitalidade: tudo nela revelava a mesma energia oculta em meus velhos odores, da seiva em mim que não se extingue. Neblinado, não pude nada além de me largar mais um par de minutos ali, à espreita, admirando o ritual de afetos que somente a imersão na meninice é capaz de exultar. 

Sumaya Lima (@sslima) nasceu e vive na cidade de São Paulo desde 1978. Formada em Letras pela USP, atua há mais de 25 anos como editora freelancer, preparadora de originais e revisora de textos. Devota da poesia, somente em 2020 lançou-se à escrita de prosa de ficção, dando início aos textos que depois seriam publicados em As sementes que o fogo germina, seu livro de estreia.