A literatura e o cinema têm uma longa e complexa relação, pois ambos se influenciam mutuamente em suas técnicas e narrativas. No entanto, essa relação nem sempre é pacífica, pois há quem defenda que o cinema depende da literatura por considerá-la superior ou que o cinema não consegue reproduzir fielmente a obra literária.
Porém, o cinema não se resume a uma cópia da literatura, pois ele é uma arte que combina vários discursos, como o fotográfico e o sonoro, como afirma o crítico Ricardo Zani: “o cinema é composto de diversos meios, entre eles, o fotográfico e o sonoro, tornando-se um exemplo de inter-relação de discurso” (2003, p.125). Assim, o cinema permite a interação com diferentes formas de comunicação e expressão. O filme é, portanto, o produto da relação entre diferentes meios e linguagens.
A literatura e o cinema são linguagens artísticas que se diferenciam em seus modos de produção, mas que se aproximam pela visualidade que algumas obras literárias apresentam e que possibilitam a sua adaptação para o cinema. Dessa forma, a literatura é, de certa forma, uma inspiração para a criação cinematográfica. Por isso, Curado (s/n, p.2) ressalta que ao se analisar as relações entre o texto literário e o cinematográfico, deve-se respeitar as especificidades de cada um, pois o autor de um romance não escreve pensando em um roteiro de cinema; seu objetivo é, evidentemente, literário. Logo, a transformação de uma novela ou romance para o cinema é uma forma de interação entre mídias, que abre espaço para interpretações, apropriações, redefinições de sentido. O filme é, então, apenas uma experiência formal da mudança de uma linguagem para a outra, pois o escritor e o cineasta têm sensibilidades e propósitos diferentes. Por isso, “a adaptação deve dialogar não só com o texto original, mas também com seu contexto, [inclusive] atualizando o livro, mesmo quando o objetivo é a identificação com os valores neles expressos” (XAVIER, 2003, p. 62).
Ou seja, a adaptação da obra literária para o cinema é um desafio bastante grande, pois há elementos que existem no texto literário e que não são necessários no cinema, assim como há elementos que surgem no filme e que não estavam no texto literário ou que estão nos dois, mas de forma diferente.
Portanto, os cineastas não se limitam aos textos literários, mas expressam na adaptação seus objetivos, suas crenças, seus conhecimentos. Eles procuram adaptar a obra literária ao cinema, observando as possibilidades de conexão entre as duas artes, tendo em vista os elementos que querem expressar. Fiorin (2006) destaca que “um texto pode passar de um gênero para o outro quando for colocado em outro contexto, ou seja, em outra esfera de atividade” (p.72). Isso significa que o texto adquire novos significados e possibilidades de ser explorado de acordo com objetivos previamente definidos.
No entanto, essa atividade de adaptar uma obra literária para o cinema exige conhecimentos específicos de cada uma dessas linguagens artísticas, de modo que a fusão desses dois sistemas de arte resulte em um movimento bastante intenso, que articule a linguagem literária à linguagem cinematográfica.
Nesse processo, a busca pela sutileza de ideias é essencial para garantir a eficácia da transposição dessas artes, pois se trata de recriar com um novo olhar, um texto já existente, tentando preservar sua originalidade.
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